Sentada em frente ao espelho escovava os longos cabelos brancos outrora loiros como o sol. Ângela já estava velha. Madura? Também. Mas preferia dizer-se velha, uma desafiante do tempo: ele passa, eu vou ficando - gabava-se. Desde que descobriu-se nesta condição estabeleceu um ritual que preenchia o vazio de todas as suas tardes. Perfumou-se e deu mais uma espiadela em suas rugas, marcas senis estampadas bem em seu rosto. Maldito cartão de visita! - e ria da sua condição. Um pouco de batom, blush, vaidades que não dispensava e que por ser velha lhe eram indispensáveis. Dirigiu-se à praça localizada a alguns quarteirões de sua casa, palco de suas tardes nos últimos dois anos. Lembranças e relembranças ativavam-lhe a memória confirmando que o Alzheimer se mantinha à distância. A praça dos amores, de todos eles que passaram por seu coração, por sua mente e pelas partes mais íntimas de seu corpo. Ângela foi amante de todos os tipos. Com um foi recatada, mas apenas com o primeiro, quem a fez descobrir todos os prazeres que poderia dar e receber. Foi ciumenta, daquelas de revistar os bolsos em busca de bilhetes, blusas em busca de marcas de batom e pescoço em busca de cheiros diferentes dos seus; aparecia repentinamente para um visita e procurava estar por perto em todos os momentos da vida dele. Então percebeu que embora amasse, amava errado: primeiro a ele e só depois a si. Tornou-se amante sua, pôs a própria felicidade em primeiro lugar. Foi quando amou o Pedro, rapaz que lhe amava mais que tudo. Resolveu mostrá-lo que estava amando errado, e quando Pedro aprendeu a abandonou para se amar e amar seu melhor amigo de infância. Ângela amou à distância e bem de perto, amou com o corpo e com a paixão, e ama amar. É uma abelhinha em busca do néctar da flor onde brota o mais belo dos sentimentos. Aquela praça permeou todos os seus amores e modos de amar, foi onde ela encontrou todos os homens a quem pertenceu e de quem teve posse. Agora velha, observa os amores que começam a se formar na sua praça e fica contente ao perceber que as pessoas continuam a buscar o amor. Com suas experiências concluiu que a vida possibilita a todos conjugar o verbo amar, independentemente de como forem ou tenham sido suas notas nas lições de português. Amor é verbo que se conjuga em todos os tempos. Ângela amou, ama e amará, até que o tempo passe e a leve consigo. Enquanto isso não acontece, ela aguarda a chegada do seu novo amor para namorar e amar mais uma vez no banco daquela praça.
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Essa foi minha participação na blogagem coletiva promovida pela Rebeca e pelo Jota Cê do blog Néctar da Flor.
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